Elizabeth Gaskell e sua “Mary Barton”

Concebido para se chamar John Barton, Elizabeth Gaskell publicou essa maravilha em 1848 como forma de criticar as condições trabalhistas da classe operária à época da crescente Revolução Industrial. A pedido de seu editor, a autora enfatizou o casal romântico para direcionar a narrativa ao público feminino, afinal, nesse período, mulheres deveriam escrever para mulheres. 

Contudo, ela não abriu mão de seus ideais e resolveu dar voz ao grupo oprimido ao descrever com maestria em sua ficção a então Manchester: pobreza e frio imperavam nas ruas sem saneamento básico; famílias com três ou mais crianças que choravam de fome e cujos pais não tinham dinheiro para comprar comida, chegando ao ponto de darem ópio para controlá-las; doenças infecciosas aparecendo por conta das péssimas condições de higiene e da alimentação escassa, fatores que baixavam a imunidade. No cenário trabalhista tínhamos: baixos salários, jornada de trabalho diária de 14h, acidentes de trabalho, demissão sem aviso prévio por parte dos patrões, trabalho infantil e prostituição.

O binômio RICO x POBRE é a espinha dorsal que Elizabeth usa para desenvolver o enredo, e discretamente insere os toques do casal romântico. Mary Barton, a protagonista-título, era filha única de John Barton, um pobre operário e membro ativo do que se pode considerar o embrião dos primeiros sindicatos. John criou Mary sozinho após perder sua esposa precocemente. A menina era o afeto de seu amigo de infância Jem Wilson, mas ela o desprezava, pois desejava investir em um casamento com um rapaz de melhor condição financeira para sair dessa vida de limitações. As ideias de Mary levam-na ao envolvimento com o sedutor Henry Carson, filho de um rico industrial, formando um triângulo amoroso que envolve uma trama policial que complementa o contexto da opressão dos operários, ponto importante de se colocar, pois as limitações trabalhistas gerava na classe uma sede de vingança por meio de um pensamento político fanático.

“Todos têm a sua época de esperar e o tipo de espera”

“Pois cada um de nós já sentiu como bastam, às vezes, alguns poucos minutos dos meses e anos a que chamamos de vida para jogar uma luz diferente sobre todo o passado e todo o futuro; para nos fazer ver a vaidade ou a criminalidade do que já passou e, assim, mudar o aspecto do que estar por vir, transformando-o de algo que nos causa repugnância naquilo que mais amamos.”

Apesar de ficção, Mary Barton é uma boa proposta para contatar essa parte da história sobre a Revolução Industrial, da qual Elizabeth foi contemporânea. A linguagem da tradução que li é acessível e de fácil compreensão, porém é uma obra que precisa de paciência, pois há muitas descrições e a narrativa demora um pouco para se desenvolver. Apesar disso, é uma leitura cativante e pode nos ajudar a repensar sobre comportamentos. Ao longo do livro somos apresentados a vários outros personagens e suas histórias, como a tia de Mary e Alice Wilson, tia de Jem, sendo impossível não sentir simpatia por elas.

Li Mary Barton pela primeira vez em 2020 e me senti impulsionada à releitura. O legado de Elizabeth Gaskell é inestimável e para merece uma chance.

 

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