Helena, Machado de Assis

Um dos maiores escritores da literatura brasileira, muito lembrado pelo título Memórias Póstumas de Brás Cubas ou pelo famoso questionamento dos seus leitores – Capitu traiu ou não Bentinho? – o bruxo do Cosme Velho também é autor de Helena, lançado primeiramente em folhetim jornal O Globo e, posteriormente, publicado em livro no Brasil e em Portugal ao mesmo tempo em 1876. Helena é muito mais do que uma abordagem recreativa sobre o amor romântico e suas frustrações, ele explora a estrutura elitista e moral da sociedade carioca do século XIX, e delicados aspectos psicológicos da natureza humana.

A história começa com a morte do conselheiro Vale, um homem de boa posição econômica e muito influente. Viúvo, vivia com a irmã solteira D. Úrsula e o filho Estácio no bairro Andaraí, no Rio de Janeiro, em um período marcado pelas fortes convenções sociais no contexto do Segundo Reinado do Brasil Império. A leitura do testamento do conselheiro revela uma surpresa a todos, pois nele reconhece Helena, sua filha com D. Ângela da Soledade fora do casamento com a esposa e mãe de Estácio, e desconhecida por todos até então.


A chegada da menina encontra resistência por parte da tia D. Úrsula e de Dr. Camargo, médico, amigo antigo do conselheiro, mas um ambicioso que queria casar Estácio com sua filha. O conselheiro pede que Helena seja integrada à família, porém uma herdeira a mais implicaria divisão da herança com o possível futuro genro, o que não foi visto com bons olhos pelo homem.

Helena, moça espirituosa e de caráter elegante, de 16 ou 17 anos, conseguia se acomodar às circunstâncias de forma paciente, além de “polir os ásperos, atrair os indiferentes e domar os hostis”, característica de sua natureza gentil e incondicional, o contrário de Eugênia, moça caprichosa, rebelde e superficial, que se tornou namorada do paciente Estácio e que nunca teve correção do pai Dr. Camargo.

"Entre a herança e o dever, dizia ela, escolho o que é honesto, justo e natural."

Formado em Matemática, Estácio era um rapaz afetuoso e honesto de 27 anos, que foi muito bem educado pela mãe. Seu pai ainda tentou inseri-lo na política ou na carreira diplomática, mas em vão, pois o garoto preferia as ciências. Seu caráter íntegro faz com que receba bem a meia-irmã. Porém, à medida que convivem, os sentimentos fraternais vão sendo substituídos por outros de nova natureza, que precisam ser reprimidos, o que gera momentos de muita tensão emocional entre os dois, comprometendo a relação.

Escrito em terceira pessoa e com demarcação precisa do tempo, o autor nos entrega Helena com uma narrativa curta, bem construída, atrativa, com reviravoltas e um conjunto de palavras que possivelmente não façam parte do vocabulário de muitas pessoas, mas nada que um dicionário não possa resolver. A edição que li também preserva as construções gramaticais da época, mantendo a grafia antiga de algumas palavras, o que nunca devem ser vistas como empecilho para você, leitor, explorar a obra, pois essa decisão foi tomada em respeito ao próprio Machado de Assis e a outros autores brasileiros e portugueses.

"Deus escreve as páginas do nosso destino; nós não fazemos mais que transcrevê-las na terra".

Segundo os críticos, Helena tradicionalmente pertence à fase romântica de Machado, também chamada de aprendizagem do escritor, mas com traços de realismo, pois apesar de perceptível as características da escola como idealização do amor e da mulher, e o intenso sentimentalismo focado no "eu" e nas emoções, é um livro explora temas complexos como forma de questionar a estrutura elitista da sociedade em que vivia, que eu vou deixar para que você, futuro leitor desse título, avalie.  

Boa leitura!

"Não se deliberam sentimentos; ama-se ou aborrece-se, conforme o coração quer".




O Estranho Caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde - Robert Louis Stevenson

O texto a seguir possui informações que você poderá considerar como spoilers, caso você queira ler primeiro o livro☺. 

“O Médico e o Monstro”, também conhecido como “O Estranho Caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde”, não foi o primeiro livro do escocês Robert Louis Stevenson, também autor do infanto-juvenil “A Ilha do Tesouro”, mas é um dos seus mais marcantes.

A história se passa na Londres Vitoriana e se desenrola pela investigação do advogado Gabriel John Utterson sobre a relação do médico Henry Jekyll, seu cliente, com Edward Hyde, um criminoso cruel, de aparência e sorriso desagradável.


Após presenciar situações estranhas e malvadas associadas a Hyde, Utterson descobre que este é o alter ego de Jekyll, que se manifesta após beber uma poção desenvolvida por ele mesmo. Ao fazê-lo, o médico sofre uma dolorosa transformação física e moral, manifestando uma aparência diferente e proporcional à sua insensibilidade, gerada por deleites censuráveis que ele pretendia e, agora, desfrutava em segredo. 

As ações insanas do outro “eu” de Jekyll repercutem negativamente. Além disso, o homem passa a perder o controle das transformações e o lado “Hyde”, agora se desenvolvendo por estar em pleno exercício, e escraviza o lado “Jekyll”, conscientizando o cientista do fracasso do experimento.

Jekyll acreditava que o homem não era somente um, mas dois que discutem na consciência, e isso lhe gerava incômodo. Seu objetivo era dissociá-los para que pudessem atuar separada e livremente. Usando seus conhecimentos científicos, desenvolveu uma droga para manipular sua humanidade. Uma xícara do preparado era o suficiente para se despir da identidade social como o respeitável Jekyll e assumir a personalidade secundária (como uma forma de emancipação?).


“O Médico e o Monstro” foi publicado em 1886, durante a Era Vitoriana, período marcado por avanços científicos, transformações tecnológicas e econômicas, e um código de conduta social rigoroso, às vezes contraditório e velado em alguns aspectos de sua prática. Contudo, a época foi marcada por extrema pobreza, miséria e exploração trabalhista que geravam elevada taxa de mortalidade, temas explorados também por outros literatos como Charles Dickens e Elizabeth Gaskell.


"Ignorar a curiosidade é uma coisa, dominá-la é outra"
O Médico e o Monstro
(Robert Louis Stevenson)

Essa conjuntura serviu de superfície para que Stevenson construísse sua narrativa, cuja principal tese é a duplicidade da natureza humana e a constante batalha BEM x MAL, que ele representou com Jekyll e Hyde, respectivamente, componentes opostos de um mesmo indivíduo, vulnerável a se atrair por uma perigosa e errônea sensação de liberdade. De forma mais discreta, a ideia pode ser estendida para o plano social – em um polo há o progresso econômico e, ao mesmo tempo, no outro, miséria para a maior parte da população. A história também explora os limites da ciência, pois Jekyll produz e testa a poção nele mesmo, sem avaliar os possíveis riscos e consequências futuras, seja para si e para a sociedade.  

“O Médico e o monstro” integra a tríade da literatura clássica de terror ao lado de “Drácula” e “Frankenstein”, porém não se engane. Nele nada há de natureza sobrenatural, mas sim psicológica e social, com uma camada de ficção científica. O enredo propõe uma reflexão sobre os dilemas morais e a psique humana, ajudada pela atmosfera enevoada e fria da Londres Vitoriana na criação do suspense.

É uma obra espetacular (em minha opinião) e que está sobrevivendo ao tempo. É curta, de linguagem acessível e sem floreios, que permite um ritmo de leitura agradável, somado ao enredo envolvente, onde o autor vai deixando pistas discretas para que o leitor participe da investigação ao lado de Utterson. 

Boa leitura!


Notas do Subsolo - Fiódor Dostoiévski

Contribuição de @luizfelipe0528

Notas do Subsolo, ou Memórias do subsolo, é considerada uma obra que entra a fundo na filosofia de Fiódor Dostoiévski. Publicada em 1864, tem como protagonista um homem que não se sabe o nome e vive recluso em São Petersburgo. Sua consciência é tão afiada que se tornar perturbadora, pois alcança um estado que começa a afetá-lo negativamente tamanha é a sua profusão – tipo quando se comete algum erro e a pessoa se sente culpada mais do que deveria, um exemplo para contextualizar. No livro, o personagem chega a falar que para uma mente assim, é necessário ter certo grau de inteligência.

O texto é narrado sob o ponto de vista do personagem principal e o próprio fala a respeito de seus desconfortos e vivências de vida. É uma leitura que traz reflexões sobre natureza instável da alma humana; a consciência excessiva; humilhação e autodestruição, ou seja, características conflituosas.

“Onde não existe amor não existe razão”

“As pessoas gostam de levar em conta somente as amarguras, não levam em conta sua felicidade”

Notas do Subsolo tem uma narrativa densa, mas que não é complicada, porém sua profundidade necessita certa concentração e atenção para a mente absorver melhor as mensagens. É considerado um dos principais trabalhos de Dostoiévski e uma referência na literatura russa.

Apesar da sua representatividade, talvez este não seja o primeiro trabalho a ser indicado para quem quer iniciar no universo deste autor. O leitor pode começar pelo livro "Gente Pobre", o primeiro publicado por ele, pois é curto e é uma troca de cartas entre dois personagens, formato que facilita o entendimento sobre o perfil literário de Dostoiévski. Mas esta é uma questão relativa e que depende do gosto e da maturidade de cada um.

E o que ler após Notas do Subsolo? Para aquele que quiser buscar textos semelhantes e que podem complementar a imersão em seus temas podem tentar O estrangeiro, de Albert Camus; Memórias da Casa dos Mortos, de Fiódor Dostoiévski; e A Morte de Ivan Ilitch, de Lev Tolstói.


"É melhor uma felicidade barata ou um sofrimento elevado?" - Notas do Subsolo - Fiódor Dostoiévski


Fica a dica de leitura 😉!

Um episódio de Natal de o relógio do senhor Humphrey

Mais um ano termina e com ele os pensamentos fluem sobre passado, presente e futuro. Para encerrar as atividades do que foi 2025, vamos falar sobre uma história daquele que escreveu bastante usando a época como cenário para discutir questões do comportamento humano.

No pequeno conto em questão, o senhor Humphrey, um homem já de idade avançada e com alguma deficiência física que não é descrita, nos fala que costuma passar os Natais sozinhos, e em uma noite de Natal, após jantar, resolve sair para um passeio com objetivo de observar o comportamento festivo das pessoas, contemplando alegremente os sinais jubilosos como crianças brincando e um operário segurando seu bebê e, ao mesmo tempo, caminhando com sua esposa, felizes.

Ao avistar um restaurante silencioso e vazio, nosso narrador percebe que nele há apenas um cliente, de feições bondosas, mas triste e choroso, jantando sozinho. Senhor Humphrey tenta a aproximação e conclui naquele instante, por si mesmo, pelas suas observações, que algo delicado deve ter acontecido para o homem estar sozinho naquela data.

“Não é, portanto, exagerado dizer que eu perderia de bom grado um de meus pobres membros para que ele pudesse ouvir a voz do velho relógio.”

À primeira tentativa de contato, ele também percebe que o sujeito é surdo e, a partir do momento em que tenta lhe dizer uma palavra afetuosa de motivação, nasce uma grande amizade. Sempre que os dois se viam, não tocavam no assunto sobre o porquê da tristeza naquele dia, ambos respeitando o espaço do outro. O novo amigo apenas confirmou que o Natal sempre lhe foi um dia festivo, mas não deu detalhes por que naquele ano estava desacompanhado. Posteriormente, ao que parece, o homem passa a fazer parte do pequeno círculo de amizades do senhor Humphrey, conhecido como clube do relógio, já que um cavalheiro surdo é um dos personagens que frequenta as reuniões.

Em longo prazo, pelo conto isolado não se sabe o que acontece depois, já que se trata de um fragmento de uma obra maior, sendo necessário talvez conhecê-la por completo para mais detalhes. Mesmo assim, a leitura deste retalho é o suficiente para que uma mente vigilante entender a mensagem.

“Na verdade, não vou lhe pregar o que eu não tenha praticado. Seja qual for o seu pesar, não desanime... não desanime, por favor.”

No Brasil, a história faz parte da coletânea “um cântico de Natal e outras histórias”, da Martin Claret, mas foi publicada originalmente na revista “o Relógio do Senhor Humphrey”, escrita e editada pelo próprio Charles Dickens, e ficou no mercado de 1840 a 1841, onde ele lançou pequenos contos e dois romances, a loja de Antiguidades e Barnaby Rudge. O projeto foi iniciado como um teste quando o firmou contrato com William Hall, sócio da editora Chapman and Hall, para editar uma revista semanal. Nele pretendia uma miscelânea contendo uma narrativa contínua conectada por memórias do narrador, o senhor Humphrey, nesse caso.




Cada edição da revista começava com uma história em que o personagem-título narrava aos seus amigos, como numa espécie de clube de leitura – o relógio do senhor Humphrey, assim alcunhado porque os textos eram guardados dentro de um velho relógio perto de sua lareira. O plano de Dickens não alcançou o mesmo nível de popularidade que os outros trabalhos, sendo cancelado com o término do romance Barnaby Rudge em 1841. Talvez não seja o seu empreendimento mais conhecido, mas é de interesse histórico para seus entusiastas e estudiosos.

Ao longo de sua criação, o conjunto de histórias foi publicado em quatro formatos distintos: (a) em 88 partes semanais, (b) 30 partes mensais, (c) uma edição em três volumes sob o título Master Humphrey's Clock, preservando a ordem completa e correta dos textos como apareceram originalmente e (d) em volumes encadernados separadamente das histórias “a loja de antiguidades” e “Barnaby Rudge”, tornando-se um material raro. A obra integral não tem tradução no Brasil e, infelizmente, são poucas as informações sobre esse trabalho.


DISCURSO DE CHARLES DICKENS

4 de abril de 1840

O Mestre Humphrey espera sinceramente (e quase se sente tentado a acreditar) que leitores de todos os tipos, jovens ou velhos, ricos ou pobres, tristes ou alegres, fáceis de se divertir ou difíceis de entreter, possam encontrar algo agradável no mostrador de seu velho relógio. Que, ao conhecê-lo, sua voz soe alegremente em seus ouvidos e sugira apenas pensamentos agradáveis. Que possam desenvolver associações favoritas e familiares ligadas ao seu nome e procurá-lo como um amigo bem-vindo. Semana após semana, então, o Mestre Humphrey acertará seu relógio, confiando que, enquanto ele conta as horas, às vezes as enganará de seu peso, e que, enquanto marca o fio do Tempo, espalhará algumas delicadas flores no caminho do Velho Ceifador. Até que chegue o período estipulado, e ele possa finalmente compartilhar livremente com seus leitores a confidência que tanto deseja manter, resta-lhe apenas despedir-se brevemente e aguardar o próximo encontro.


A todos, um feliz Natal e um 2026 cheio de graças...


250 anos com Jane Austen...

 

Hoje sabemos a sua verdadeira identidade, mas em vida ela permaneceu anônima, ainda que não usasse pseudônimo masculino. Mas por quê? Será que ao escrever ela estaria cometendo uma transgressão, já que atividades intelectuais como a literatura eram precisamente masculinas? Será que a revelação da sua autoridade de escritora em público, por ser mulher, poderia ser autoexposição negativa? Será que ela precisava que sua obra fosse avaliada pela qualidade e não por sua identidade?


Há 250 anos nascia alguém que se tornaria uma grande escritora. Sua caneta trabalhou em uma época em que as mulheres tinham poucos direitos legais e sociais, incluindo a escrita como profissão. Mesmo assim, sem perder a feminilidade, Jane Austen não hesitou em ajudar a criar espaço para o protagonismo feminismo.

Ela assinou sua primeira obra publicada, Razão e Sensibilidade, com a expressão By a Lady – por uma dama. O romance seguinte (o famoso Orgulho e Preconceito) foi identificado como “pela autora de Razão e Sensibilidade”. A página-título de seus dois romances póstumos (Persuasão e a Abadia de Northanger) foram identificados como "pela autora de 'Orgulho e Preconceito’, ‘Mansfield Park’, etc.". No entanto, uma nota biográfica escrita por seu irmão Henry Austen para esta publicação a identificou pelo nome, sendo a primeira vez que alguém soube com certeza quem havia publicado essas obras (1817).

Crítica social irônica, mas de escrita refinada, Jane Austen desafiou regras com a forma que construiu suas histórias e suas personagens femininas e, ainda hoje, continua entregando um legado cheio de bons ensinamentos para todos os seus leitores, que não são apenas mulheres, pois ela não escreveu apenas romances, ela explorou com lucidez a complexidade da natureza humana e seus relacionamentos. Indo mais além, a fé cristã que moldou a vida dela cintila discretamente em suas narrativas, oferecendo ao leitor mais atento um material de incentivo à reflexão sobre as próprias atitudes. O nome Jane Austen atravessou os tempos e, no século XXI, além de continuar a atrair novos fãs, também é objeto de estudos no meio acadêmico.



JANE AUSTEN

1777 – 2025

O Menino da Promessa


O MENINO DA PROMESSA

Isaías 9:6


(Um poema de Natal,
pelo Natal e
para o Natal)

O Menino da Promessa nasceu
E Seu Pai por meio de homens escreveu
Sua história que irrompeu
Em um Livro que sobreviveu... 

Um Livro que guia
Um Livro que conquista
Um Livro que mostra
Uma Palavra frondosa

O Menino da Promessa nasceu
Sua mãe O concebeu
Em uma época marcada
Por uma Roma despetalada...

Roma egoísta
Roma golpista
Roma que enriquece
Por um poder que empobrece

O Menino da Promessa nasceu
Seu pai adotivo O acolheu
Porque o seu Pai O elegeu
Num momento que Ele mesmo regeu...

O Pai que protege
O Pai que recolhe
Os filhos perdidos
Pelos vales da morte 

O Menino da Promessa nasceu
Mas antes um ventre já idoso floresceu
Para preparar o caminho
Porque um povo se corrompeu... 

Povo de freima
Povo que teima
Povo que age
Com certa vaidade 

O Menino da Promessa nasceu
Como um pequeno bebê, assim o Senhor desceu
Um bebê que se aninhou
Na mãe que o Senhor mesmo levantou


O Menino da Promessa nasceu
Jesus, Teu nome o Senhor recebeu
Um bebê humano
Ao mesmo tempo Soberano

O Menino da Promessa nasceu...


 

Helena, Machado de Assis

Um dos maiores escritores da literatura brasileira, muito lembrado pelo título Memórias Póstumas de Brás Cubas ou pelo famoso questionament...