Lois, a bruxa

Os julgamentos de Salém ocorreram em 1692 e no início de 1693, mas o impacto foi tão grande que Elizabeth Gaskell concebeu, quase dois séculos depois dos ocorridos, ″Lois, a bruxa″, como forma de criticar os acontecimentos. Misturando personagens fictícios com reais, ela conseguiu desenvolver um material de elevado valor literário e histórico. Escrito em terceira pessoa, com um narrador que eu considerei intruso, a obra transporta os leitores para uma época marcada pela caça às bruxas e consegue incentivá-los a uma reflexão sobre as consequências do fanatismo religioso e dos preconceitos sociais caso estejam dispostos a não tratar o livro como mais um em sua estante.

Em ″Lois, a bruxa″, a protagonista é Lois, uma garota inglesa de 18 anos que tinha um vilarejo de Bradford como verdadeiro lar. Filha do pároco Parson Barclay e de Henrietta Barclay, a jovem fica órfã, e no leito de morte, sua mãe implora que ela procure o tio materno Ralph Hickson para pedir-lhe acolhida. O tio mora em Salém, EUA, para onde migrou por conta de divergências religiosas.

Ao chegar a uma terra marcada por radicalismo religioso e disputa territorial entre indígenas e colonos, na maioria puritanos, Lois encontra um ambiente bem diferente do que fora criada. A família do tio Ralph é formada pela esposa Grace Hickson e os filhos Manasseh, o primogênito; Faith, a do meio e com mesma idade de Lois; Prudence, a caçula; e Nattee, uma criada indígena.

Grace não recebe Lois bem, acha a sua chegada bem inoportuna, além do mais, ela vinha de uma família cujas ideias destoavam das suas. Mulher desdenhosa e muito religiosa, cuidava do marido doente apenas por conta das obrigações matrimoniais. Acolheu a sobrinha pela responsabilidade do sangue e muitas vezes a estimulava para falar sobre suas percepções advindas da criação apenas para criar discórdia com Manasseh, um rapaz muito ligado ao estudo das Sagradas Escrituras. Já Faith é uma adolescente muito apegada ao amor não correspondido e imatura em gerenciar sentimentos, e Prudence, uma criança que se deleitava na maldade que suas travessuras proporcionavam, estando Nattee entre seus alvos, muitas vezes com a pele marcada pelos beliscões da menina.

Apesar das dificuldades emocionais pelas quais passou, Lois sempre se manteve, incondicionalmente, bondosa e esforçada em conseguir seu lugar na família. Após a morte do tio, depara-se com o primo (estranho) primo exigindo-lhe casamento por conta de uma voz que, segundo ele, escuta dia e noite e que o aconselha a se casar com Lois para salvar a vida dos dois. Esta o rejeita, o que faz com que a intimidação do rapaz aumente, mais um motivo para despertar temor na garota.

Nesta época, Salém era um cenário supersticioso onde a possível existência de bruxas alimentava o medo das pessoas. O pecado da bruxaria era considerado crime passível da pena capital, geralmente por enforcamento em praça pública, pois o povo achava que essa era a forma de se expulsar uma bruxa da terra. Sem mais investigações, o veredicto fundamentava-se apenas em provas circunstanciais e espectrais. Infringia-se nervosismo no acusado ao ponto de eles confessarem o crime (inexistente) por medo da morte; outros chegavam a acreditar na culpa por conta da imaginação alimentada pelo contexto, propagando o pânico. A maioria dos culpados eram mulheres, mas homens também foram apontados. Bruxas ou bruxos eram considerados cúmplices de Satanás, que lhes davam poderes para lançar feitiços nos cristãos.

Em um dos episódios de denúncia presenciados por Lois, ela chegou a sentir piedade da acusada. Hester, a filha do pastor Tappau começou a ter convulsões e emitir berros. Em um momento de parcial recuperação, murmurou o nome da criada Hota, uma indígena, o que foi suficiente para esta ser presa por bruxaria. A mulher foi condenada à forca, embora tivesse confessado o crime sob o acordo de ter sua vida poupada, mas resolveram seguir com a sentença, pois, nesta história, tratava-se da primeira condenação por bruxaria em Salém, o que serviria de alerta para os demais praticantes, e o fato de que Hota não faria falta no mundo por ser indígena e pagã, foi o segundo argumento.

Para mais detalhes da história, deixarei nas mãos do leitor, caso se interesse pela leitura. Este livro também descreve de forma simples o contexto histórico, social que impulsionaram na verdadeira histeria de Salém. No entanto, se quiser saber mais sobre esses eventos, a própria narrativa dá um direcionamento para que você possa pesquisar sobre.

″Lois, a bruxa″ foi escrito em 1859, uma época em que tentavam calar as mulheres privando-as de cargos que até então eram dignos apenas de homens. Elizabeth Gaskell foi esposa e mãe, mas não abriu mão da sua posição de escritora. Foi a sua forma de dar voz às camadas mais humildes da sociedade, ao mesmo tempo em que a emprestou às mulheres de sua época, pois se desafiou a escrever sobre eventos sociais como a revolução industrial e a injustiça de Salém, apoiada, inclusive, por seu esposo. Uma escritora que ajudou a trilhar o caminho do verdadeiro feminismo, que se encontra distorcido nos dias de hoje, chegando até mesmo a ser confundido com o femismo.


Outro ponto marcante em sua obra, pelo menos nas que li (Mary Barton, Norte e Sul, Lois a bruxa), são as referências ao texto bíblico, não no sentido religioso. Por meio de seus personagens, Gaskell consegue nos mostrar o significado da obediência a Deus e à Sua Lei: defesa e promoção da vida, solidariedade, amor e humanidade para o mundo ser um lugar melhor, ou seja, não se limitar à decodificação da letra, mas à sua aplicação; não apenas ouvir, mas praticar.

 

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