Uma hora e quinze minutos de instrução (uma crônica de interior)

Estava sentada aguardando a missa começar quando percebi um rapaz entrar sozinho na igreja, com os pés descalços e segurando suas havaianas. Ele se direcionou até à imagem de Nossa Senhora e a acariciou (não para idolatrá-la, mas em respeito por ser uma representação da mãe de Jesus Cristo). Sentou-se no chão. Na verdade, passou a missa inteira sentado no chão. Não sei se porque não se achava digno para sentar-se no banco com as demais pessoas. Comungou (esperou para ser o último a fazê-lo), mais uma vez foi até à imagem e a acariciou (pelos mesmos motivos já colocados) e, depois, ajoelhou-se. Observei seu comportamento durante toda a celebração. No finalzinho, começou a chover e, já na porta da igreja, escutei quando ele, preocupado, vendo a chuva, disse:

– Meu Jesus, o que será de mim?

Pensei ser um rapaz em situação de rua ou com algum problema de saúde mental, talvez sem família ou, se tinha, negligente, não sei, não sou adequada para tal julgamento. Era jovem, e de figura já desgastada por conta das prováveis hostilidades da vida. Começou a pedir esmola na porta da igreja. Após essa cena, eu fui embora; ele e mais algumas pessoas ficaram. Essa era a situação dele e de tantas outras por aí.


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