Para a maioria dos leitores modernos, a Bíblia certamente é familiar, mas ao mesmo tempo pode parecer incomum quando abordada sob uma perspectiva literária. O fundamentalismo moderno pode ser perigoso e nublar nossa mente para neguemos o legado bíblico e sua importância. Um compilado de narrativas e poemas, na verdade, sua construção levou anos e tem uma autoridade que pode moldar vidas de homens e mulheres, caso permitam.
Um dos livros que me chamaram atenção até então foi o da rainha Ester, o qual gostaria de compartilhar com vocês. "Ester" é um dos dois únicos livros da Bíblia que têm o nome feminino, O outro é "Rute". Outro detalhe importante a se colocar é que, com esse texto, não pretendo, em momento algum, anular a importância espiritual dessa belíssima antologia que é a Bíblia ou igualá-la a outros livros produtos da mente humana colocando em xeque a sua Inspiração Divina. Pelo contrário, espero ajudar a pavimentar uma estrada para encorajar você, já que chegou até aqui, à curiosidade e a buscar, além do livro de Ester, as demais obras como instrumento espiritual de Deus. É uma proposta delicada, eu sei, mas também sei que valerá a pena.
A história de Ester se passa durante o reinado do rei Assuero, correspondente a Xerxes I, período em que muitos judeus estavam sob o domínio da Pérsia, após a queda do Segundo Império Babilônico (durante o reinado de Ciro, avô de Assuero), o que pôs fim a setenta anos do famoso cativeiro babilônico. Segundo a historiografia, nem todos os judeus voltaram para Jerusalém quando Ciro emitiu seu decreto que lhes permitia o retorno, mas nem todos voltaram e permaneceram na Pérsia e por todo o mundo onde haviam se estabelecido durante o exílio.
No início de "Ester" somos apresentados ao judeu Mardoqueu (ou Mordecai) , primo e pai adotivo de Ester, uma jovem judia simples e reservada que perdeu os pais precocemente. Mardoqueu é da tribo de Benjamin (para quem não sabe, as tribos de Benjamin e de Judá deram origem ao reino de Judá, que foram cativos pelo Império Neobabilônico, quando da sua separação do Reino Unido de Israel e Judá).
Assuero é casado com Vasti e, muito exibido e ostentando as riquezas do seu vasto reino, deu um grande banquete para seus súditos, ao mesmo tempo em que a sua rainha dava um banquete para as mulheres. Após excessos, Assuero pede que Vasti se apresente aos súditos para exibir sua beleza, porém ela se nega. Essa atitude ousada custou-lhe a destituição do cargo pelo rei ao ser orientado por seus conselheiros, que por meio de um decreto também ordenava as mulheres do reino a respeitarem seus maridos. Um ponto a ser colocado aqui é que as narrativas bíblicas nasceram no contexto de uma sociedade patriarcal, embora as mulheres tivessem espaços importantes, por exemplo, na política, como é o caso de Vasti, a bela rainha do grande império persa, elas estavam subordinadas ao controle dos homens. Vasti foi corajosa e abalou a ordem vigente, revelando a resistência das mulheres a esse modelo.
A partida de Vasti estimulou a busca por uma nova rainha, reflexo do poder dos reis persas da época. Ao mesmo tempo, Mardoqueu foi trabalhar na corte como recompensa por denunciar duas pessoas que queriam matar o rei. Mardoqueu pede que Ester se coloque como candidata à nova rainha. Para isso, ela tem que passar por uma meticulosa e regulamentada preparação de doze meses (haja paciência, não é mesmo?), onde recebe cuidados físicos e educação apropriada sobre comportamento de uma rainha; enquanto passa por esse processo, Ester não se envolve em intrigas ou competições, pelo contrário. Essas qualidades aprimoram sua beleza física, o que faz com que seja escolhida por Assuero, data de 479 a.C (provavelmente). Mesmo diante das riquezas, Ester não perde sua humildade perante Deus e com os seus súditos (sigamos o seu exemplo).
O antagonista humano da história é Amã (ou Hamã), promovido a primeiro-ministro, o cargo mais elevado da corte, estando abaixo apenas do rei. Isso alimenta seu ego a tal ponto que ele passa a exigir que a população se ajoelhe diante dele, porém Mardoqueu se nega, pois somente Deus é digno de reverência, e se ele o tivesse feito, estaria reconhecendo o primeiro-ministro como um deus. Isso ofendeu profundamente Amã de tal forma que ele manipula Assuero a assinar um decreto ordenando o assassinato de todos os judeus do império por pura vingança pessoal, usando como argumentos falsos como a rebeldia do povo (corrupto mesmo ele!).
Preocupado com o decreto, Mardoqueu recorre a Ester para que ela intervenha. Percebam que o povo hebreu está em um ambiente hostil depois de setenta anos no cativeiro babilônico (mas isso já é tema para uma outra reflexão). Ela se vê em um impasse devido às leis persas, pois a aproximação de uma pessoa do rei poderia resultar em morte caso ele não estendesse seu cetro de ouro, uma situação perigosa até mesmo para uma rainha. Com sabedoria, Ester pede que Mardoqueu e todos os judeus a acompanhem em um período de jejum de três dias, mostrando sua submissão e humildade perante Deus, após o que, ela supera o medo do perigo e a preocupação com as consequências da apresentação ao rei... O final da história deixo para você busque, leitor... ou perderá a graça!
O livro de Ester não é apenas um componente do Antigo Testamento bíblico, mas uma narrativa rica sobre os bastidores da Providência Divina, valores e desvalores, além de história de conquistas territoriais. Ele é curtinho (dez capítulos, apenas) e sugiro que a sua leitura seja acompanhada por outras fontes para aprofundar o estudo para que, assim, o leitor consiga assimilar seus ensinamentos. O seu autor, a data de escrita e a sua historicidade também tem sido objeto de debate entre estudiosos, enquanto alguns argumentam que seja uma obra de ficção, outros acreditam que ele se baseia em eventos reais. Independente de tudo isso, a obra tem uma beleza única que necessita ser explorada nos dias atuais. E então, será que Ester não mereceria uma chance?


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