O Professor, de Charlotte Bronttë

Charlotte Brontë é uma das mais aclamadas escritoras inglesas, que se destaca por Jane Eyre, seu mais famoso romance. Aliás, conheci a autora por meio desta obra, a qual já tive a oportunidade ler, porém como não estava muito bem, não cheguei a escrever minhas impressões sobre. Os planos são de fazer uma nova leitura para poder fazer esse trabalho, pois ajuda bastante na consolidação de certos conhecimentos, e espero que sirva de fonte de inspiração e reflexão para aqueles que me derem a honra de acessar meu conteúdo.

A obra de Charlotte Brontë vai bem mais além de Jane Eyre. Este foi o seu primeiro livro a ser publicado, mas não a ser escrito. O primeiro livro escrito da autora foi “O Professor”, justamente do que se trata esse post. Tal obra fora rejeitada por todas as editoras com as quais ela tentou publicação. Sendo mais um escrito em um momento em que o ambiente literário não era considerado para mulheres, “O Professor” foi escrito em 1847 sob pseudônimo masculino, Currer Bell. Aliás, as irmãs Brontë escritoras adotaram essa estratégia na tentativa de verem suas obras publicadas.

A publicação de “O Professor” fora feita postumamente pelo esposo de Charlotte, Arthur Bells Nichols, em 1957 que, aliás, emprestou o sobrenome para os pseudônimos masculinos das irmãs. Já fazia alguns anos que eu havia tomado conhecimento da obra, pela sinopse me interessei em conhecê-la, mas somente agora pude adquiri-la. Não ficou entre minhas leituras favoritas, gostei mais de Jane Eyre, no entanto eu leria novamente, com certeza.

O enredo aborda a história de William Crimsworth, um jovem inglês que ficou órfão muito cedo de pai e mãe e fora criado por tios aristocratas, que queriam determinar o caminho para ele seguir. William também era ignorado por seu irmão, um tirano e rude industrial, com o qual ainda tentou trabalhar, mas não deu certo e partiu para Bruxelas, Bélgica, onde trabalhou como professor inicialmente em duas escolas, uma masculina e outra feminina. Nesta conheceu quem viria a ser o grande amor de sua vida, Frances Evans, uma aluna que também era professora na mesma instituição, quem lhe atingiu com a centelha prometeica, como ele cita em um momento.

O livro é escrito em primeira pessoa, sob a perspectiva de William. Temos aí um protagonista masculino, o que vai de encontro à obra de Charlotte, cujas protagonistas geralmente são mulheres em processo de formação e amadurecimento. Segundo as fontes, a obra é baseada nas experiências da própria autora quando esteve em Bruxelas onde lecionou a partir de 1842.

Percebi o amadurecimento do casal, muito interessante, por sinal, pelo menos para mim; também pude perceber a ideia do feminismo na futura esposa de William, quando não aceita deixar o emprego para ser sustentada por ele. Lembrando que o feminismo que cito não é a ideia errônea que defende a mulher em detrimento do homem, mas o movimento de igualdade de direitos. 

Também achei interessante o fato de termos uma visão de como era a educação na época, por se tratar de uma obra clássica, temos a narrativa de quem viveu na época e isso é muito bom para ampliarmos a visão sobre o tema, o qual já havia verificado em Agnes Grey, e pode-se dizer que a situação não mudou muito. Minha opinião é que os problemas seguem, mas apenas disfarçados de avanços, ou seja, sofismas, mas enfim, esse não é o foco do post.

Embora o texto de “O Professor” seja rico, achei a leitura simples e não tão densa. Consegui ver o padrão da escrita de Charlotte, embora eu tivesse experiência até então com Jane Eyre. A autora usa como referência passagens bíblicas, e o protagonista costuma fazer a análise psicológica de quem ele encontra e uma descrição física detalhada. A autora era protestante (segundo a sua biógrafa Elizabeth Gaskell, uma protestante assídua) e em algumas passagens notei alguns comentários negativos em relação ao catolicismo, daí eu sugiro a manter a mente aberta, pois pode ferir quem for praticante, até por que ela não generalizava e não era intolerante, então não julguemos sua obra por conta de um detalhe que, na minha opinião, pode ser considerado irrisório, até porque em uma carta ela expõe “Ao mesmo tempo, permita-me dizer-lhe que existem alguns católicos que são tão bons quanto qualquer cristão que não conhece a Bíblia, e são muito melhores do que muitos protestantes”. Eu adoto aqui uma postura imparcial quanto a isso. Outro ponto que merece destaque é o casamento, que é central na obra, fortemente influenciado pelos costumes da época, e em uma passagem é comentado sobre como a vida das solteiras é enfadonha.

A edição que li foi da editora Principis, com um prefácio curtinho, mas rico, com folhas leves e finas, semelhantes às de jornal. Para mim foi tranquilo, até mesmo pelo custo, a capa é brochura, e com boa revisão gramatical. Recomendo sim, tanto a obra como a edição! O livro também é outro convite à reflexão sobre valores, condutas, conflitos internos, diferenças sociais, pois William passa por algumas humilhações, mas consegue driblá-las de cabeça erguida, assim como a sua futura esposa. Seguem algumas passagens para que possamos analisar, e julgue você mesmo, leitor:

“Certamente eram flamengos, e ambos tinham a típica fisionomia flamenga, em cujos traços a inferioridade intelectual estava inconfundivelmente marcada; ainda assim eram homens, e, em geral, homens honestos, e eu não via por que o fato de serem aborígenes daquela terra plana e sem graça deveria servir de pretexto para trata-los apenas com severidade e desprezo.”

“Deixe que o respeito seja a fundação; o afeto, o andar térreo; e o amor a estrutura.”

“Minha médica foi a Razão, que começou sua exposição demonstrando que o prêmio que eu havia perdido era de pouco valor.”

“Quando há um grão de perseverança ou de força de vontade, até obstáculos mais insignificantes servem como estímulo e não como desencorajamento.”

“O pé áspero pisa com mais firmeza no solo escorregadio.”







 

 

 

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