A ideia de “Frankenstein
ou o Prometeu Moderno” nasceu em 1816, em uma reunião de amigos numa
noite chuvosa com relâmpagos e trovões, ambiente ideal para se contar histórias
de assombração, o que justamente faziam Lord Byron, Mary Shelley, Claire
Clairmont, John Polidoro e Percy Shelley, sendo que o primeiro lançou um
desafio literário onde cada um do grupo deveria escrever uma história de
fantasmas. A partir daí, surgiu uma das mais aclamadas obras da literatura
mundial, juntamente com o primeiro vampiro de forma humana, Lorde Ruthven, este
a partir da mente de Polidori.
Eu resolvi contextualizar com um
pouco mais de detalhes minhas percepções na tentativa de chamar a atenção
de quem estiver lendo este texto e para melhor entendimento em como a criadora
esboçou sua criação. Mary Shelley nos apresenta a Victor Frankenstein e às
pessoas importantes na sua vida. Com eles, a autora discute sobre
características próprias da natureza humana como, por exemplo, a tendência ao
julgamento e à ambição desenfreada, a inveja, a solidão, a curiosidade, bem
como os limites e consequências de nossas ações, sejam eles em quaisquer
aspectos da vida, desenvolvendo uma forte crítica social em uma época que a
ciência continuava a trilhar o seu caminho. Shelley teve uma forte educação
científica e muito se discutia sobre o polêmico princípio da vida nesse
período, século XIX, usando-o como cenário para desenvolver sua estória.
Assim, Victor Frankenstein
representa essa curiosidade, concebido como um rapaz que sempre se sentiu
atraído pelas leis ocultas da natureza, cujas explicações os estudiosos da
época buscavam incansavelmente. Não gostava de política e, desde criança, sem receber
a devida orientação, estudou por conta própria as obras de alguns alquimistas
famosos como Paracelso, Alberto Magno e Cornélio Agrippa, interessando-se por
suas ideias relacionadas ao elixir da vida, consideradas obsoletas e
fantasiosas para a ciência moderna da época. Ao completar 17 anos, seu pai o
enviou para a Universidade de Ingolstadt onde decidiu estudar Filosofia
Natural, considerada a precursora das Ciências Naturais. Victor levava consigo
um questionamento: de onde procedia o princípio da vida?
Victor possuía verdadeira atração sobre a estrutura do corpo humano ou de qualquer outro animal, o que levou a se dedicar particularmente ao estudo da fisiologia. Passou também a estudar fenômenos relacionados à morte, pois, na sua opinião, era o primeiro passo para entender a vida. Visitava jazigos e sepulturas para saber como os corpos se decompunham e passou também a colecionar ossos (o arrebatamento de corpos – remoção secreta de cadáveres de cemitérios – foi uma prática comum no século XIX).
Nosso personagem promoveu a
ideia de que a ele estaria reservada descobrir o princípio da vida e passou a
trabalhar em um ambicioso projeto para animar entidades inanimadas, em outras
palavras, infundir vida no que estava morto. O trabalho durou cerca de dois
anos, período em que negligenciou a saúde e a família, tamanha era sua
dedicação. Resultado? uma criatura com feições disformes produzida a partir de
fragmentos de cadáveres, mas que adquiriu pensamento e vontade própria e que,
aos seus olhos, foi considerada uma verdadeira aberração. A partir daí, Victor
Frankenstein foi tomado por uma grande culpa pelo fato de sua criação e
pensamentos de que estava sendo constantemente perseguido pelo
monstro.
O segundo nome da obra de
Shelley, “O Prometeu Moderno”, faz uma relação interessante com o
mito grego do titã Prometeu, que rouba o fogo do céu para assegurar a criação
do homem e sua superioridade sobre os demais animais, desafiando os deuses. Por
conta da ousadia, Prometeu fora castigado ao ser preso no monte Cáucaso onde
uma águia todo dia devorava o seu fígado. Assim, fazendo analogia com o mito,
Victor passou a viver uma vida sem paz, o que era um dos seus castigos.
Escondido em um casebre ligado à casa de uma família, sem se revelar, o monstro aprendeu a falar e a refletir sobre sentimentos e vícios humanos, passando a sentir a necessidade de inserção social. Em uma tentativa, a família se assustou e isso devastou a criatura, que se revoltara mais ainda com as suas feições, confirmando o impedimento de suas relações, um dos fatores que motivaram o sentimento de vingança sobre o seu criador, o outro foi a rejeição do seu próprio criador. Ora! Se o próprio criador o rejeita, como então se sente uma pessoa ao sofrer rejeição da família? Outro detalhe que sinto necessidade de destacar é o fato de o monstro ser inominado. Isso mesmo! Frankenstein é o sobrenome do seu criador. Vemos uma luta do monstro pela busca de sua identidade.
À medida que lia, eu era tomada
cada vez mais pela curiosidade pelo desfecho. A obra é rica em detalhes dos
ambientes que Victor Frankenstein frequentava e uma boa opção para ajudar a
enriquecer o vocabulário, mas ela precisa de paciência por sua densidade, sendo
repleta de passagens que nos convida à meditação. “Frankenstein ou o Prometeu
Moderno” também é considerada uma fábula moderna por conta da sua moral.
Automaticamente fui levada a me colocar no lugar do monstro.
Para explorar a obra, precisamos
manter a mente aberta, do contrário limitá-la-emos a uma ficção científica a
mais no universo literário, porém isso é apenas uma opinião pessoal. Em todo
caso, a tentativa de Shelley é nos ajudar com que revejamos nossas atitudes e
fazer com que sutilmente façamos o nosso próprio julgamento em quem é o
verdadeiro monstro da história, pois muitas vezes somos conduzidos pelo
invólucro e não pelo conteúdo.
Marcia Xavier de Brito, que
escreveu o prefácio da edição que li, coloca “É raro que um desafio literário
entre amigos seja tão bem-sucedido quanto o daquele verão de 1816. Mary Shelley
e o dr. Polidori criaram personagens que assumiram um lugar de destaque no
imaginário de gerações por séculos. Representam polos opostos de uma mesma
imagem. A criatura monstruosa, um pária por sua aparência hedionda, nutre o
desejo de amar e fazer parte de uma comunidade; no entanto a feiura esconde e
impede que seja notada sua bondade interior. Por outro lado, o vampiro – outro
ícone fruto de tal concurso – seja Lorde Ruthven, conde Drácula ou Lestat, é
uma criatura fisicamente atraente, sofisticada e até mesmo sensual, embora tais
traços escondam o mal e a corrupção de seu coração” (fica para reflexão!).
O desfecho da obra também nos
leva analisar a famosa máxima "todos os fatos têm três versões: a sua, a
minha e a verdadeira". Vale a pena lê-la! Eis algumas passagens que
admiti uma certa importância para mim:
"Somos
criaturas sem forma, mas ficamos pela metade caso alguém mais sábio, melhor,
mais estimado que nós, assim deve ser tal amigo, não nos ajude a aperfeiçoar
nossa natureza fraca e imperfeita."
"Quantas
coisas estaríamos prestes a conhecer se a covardia ou o descuido não impedissem
nossas pesquisas?!"
"Um ser humano maduro deve sempre preservar a
mente calma e pacífica e nunca permitir que a paixão ou desejo transitório
perturbe sua tranquilidade"
"Seria o homem ao mesmo tempo de fato tão
virtuoso e magnífico e, no entanto, tão vicioso e desprezível"
Nenhum comentário:
Postar um comentário