Visitando a Abadia de Northanger com Catherine Morland

Na minha humilde opinião, livros podem ser ótimas companhias, e venho hoje recomendar a leitura de mais um da minha querida Jane Austen: a Abadia de Northanger. Ele não está no rol dos meus livros favoritos, mas considero uma ótima leitura para quem quer iniciar a inserção no universo austeniano e refletir sobre como o comportamento humano teve tão pouco progresso em relação a certas questões.

Em a Abadia de Northanger, Jane Austen nos apresenta Catherine Morland, mocinha de 17 anos que não tinha tendência para heroína, pois além de não ser bonita quando criança, o que a fez ser descrita como obtusa pela autora, tinha pouca inclinação para os estudos. Porém, minha gente, ela esforçava-se. Vamos dar a César o que é de César; quando você conhecê-la, confirmará. O tempo passou e Catherine tornou-se bonita, mas não dentro dos padrões exigidos pela sociedade da época. Ainda assim, uma menina adorável, sensível e que demonstra empatia com o próximo, apaixonada por romances góticos e de uma imaginação fértil.

Catherine é convidada pelo casal Allens, seus vizinhos em Fullerton, a passar uma temporada em Bath, período no qual ela é inserida na hipócrita sociedade, abastecida concomitante e disfarçadamente de intrigas e vaidades. Em meio aos passeios, a garota conhece Isabella Thorpe, que se torna sua melhor amiga. As duas faziam muitas atividades juntas, das idas ao balneário à participação nos bailes noturnos. Também somos apresentados a outros personagens, com destaque para John Thorpe, irmão de Isabella, e James Morland, irmão de Catherine, que tem um breve relacionamento com a amiga.

Em um dos bailes, Catherine conhece Henry Tilney, por quem passa alimentar afeto romântico discretamente e é correspondida, e sua irmã Eleanor Tilney, de quem também se torna amiga. No início, pessoal, não me agradei muito de Henry Tilney, por conta de umas ideias que ele apresentou para Catherine, mas conforme avancei a leitura, fui conhecendo melhor sua personalidade e me deparando com um rapaz gentil, sensato e desinteressado, exemplo de que precisamos conhecer melhor antes de tecer certas opiniões das quais poderemos nos arrepender posteriormente.

Os irmãos Tilney são pessoas de bom temperamento e de boa posição financeira. Catherine é convidada pelo pai deles, o general Tilney, a passar uma temporada em sua residência, a Abadia de Northanger, uma construção antiga que logo chama atenção da nossa heroína, que se atrai por esse tipo de ambiente por fazer parte das histórias góticas de que tanto gosta.  Na casa de seus amigos, ela presencia alguns episódios que a oportunizam retirar da forma mais dura possível o vil capuz que disfarça a sociedade. Não vou detalhar aqui para não estragar as surpresas que Jane Austen nos oferece em seu livro.

Durante a leitura, somos confrontados com ideias que nos incitam a reflexão, típico de Jane Austen e é um dos elementos que mais me atraem na sua obra. Obviamente, isso só ocorre se deixarmos a porta das nossas mentes abertas, por isso a necessidade de nos doarmos para a leitura da obra austeniana. Eis algumas dessas ideias que julguei interessante compartilhar:

“A amizade é decerto o melhor bálsamo contra as dores da decepção amorosa.”

“Se estou errada, estou fazendo o que julgo certo.”

“(...) uma perda pode às vezes ser um ganho.”

Embora se trate de uma trama mais leve e simples na construção dos personagens, a Abadia de Northanger não deixa de apresentar os traços característicos da autora, como o humor irônico, criticando a sociedade da época, com a concepção de que homens e mulheres têm capacidades intelectuais distintas, o casamento é um negócio, o estado financeiro e social deve determinar o destino de uma moça, etc. Na verdade, Jane Austen compõe sua obra discutindo condutas humanas que continuam presentes nos dias de hoje, e constrói Catherine com valores que, além de estarem escassos, quando ocorrem, são passíveis de injustiças.

“Nesta obra, Jane Austen nos presenteia com um de seus personagens mais adoráveis: Catherine Morland” é o que diz Otto Maria Carpeaux na orelha da capa da versão que li, que foi da Martin Claret, e eu concordo com seu posicionamento. Concluindo, quem conhecer Catherine Morland verá que ela merece sim o título de heroína, como é chamada pela autora, e que a Abadia de Northanger é uma obra que vale a pena ser explorada.





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