O texto a seguir possui informações que você poderá considerar como spoilers, caso você queira ler primeiro o livro☺.
“O Médico e o Monstro”, também conhecido como “O Estranho Caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde”, não foi o primeiro livro do escocês Robert Louis Stevenson, também autor do infanto-juvenil “A Ilha do Tesouro”, mas é um dos seus mais marcantes.
A história se passa na Londres Vitoriana e se desenrola pela investigação do advogado Gabriel John Utterson sobre a relação do médico Henry Jekyll, seu cliente, com Edward Hyde, um criminoso cruel, de aparência e sorriso desagradável.
Após presenciar situações estranhas e malvadas associadas a Hyde, Utterson descobre que este é o alter ego de Jekyll, que se manifesta após beber uma poção desenvolvida por ele mesmo. Ao fazê-lo, o médico sofre uma dolorosa transformação física e moral, manifestando uma aparência diferente e proporcional à sua insensibilidade, gerada por deleites censuráveis que ele pretendia e, agora, desfrutava em segredo.
As ações insanas do outro “eu”
de Jekyll repercutem negativamente. Além disso, o homem passa a perder o
controle das transformações e o lado “Hyde”, agora se desenvolvendo por estar em
pleno exercício, e escraviza o lado “Jekyll”, conscientizando o cientista do
fracasso do experimento.
Jekyll acreditava que o homem não era somente um, mas dois que discutem na consciência, e isso lhe gerava incômodo. Seu objetivo era dissociá-los para que pudessem atuar separada e livremente. Usando seus conhecimentos científicos, desenvolveu uma droga para manipular sua humanidade. Uma xícara do preparado era o suficiente para se despir da identidade social como o respeitável Jekyll e assumir a personalidade secundária (como uma forma de emancipação?).
“O Médico e o Monstro” foi publicado
em 1886, durante a Era Vitoriana, período marcado por avanços científicos, transformações
tecnológicas e econômicas, e um código de conduta social rigoroso, às vezes
contraditório e velado em alguns aspectos de sua prática. Contudo, a época foi
marcada por extrema pobreza, miséria e exploração trabalhista que geravam elevada
taxa de mortalidade, temas explorados também por outros literatos como Charles
Dickens e Elizabeth Gaskell.
Essa conjuntura serviu de superfície
para que Stevenson construísse sua narrativa, cuja principal tese é a duplicidade
da natureza humana e a constante batalha BEM x MAL, que ele representou com
Jekyll e Hyde, respectivamente, componentes opostos de um mesmo indivíduo,
vulnerável a se atrair por uma perigosa e errônea sensação de liberdade. De
forma mais discreta, a ideia pode ser estendida para o plano social – em um
polo há o progresso econômico e, ao mesmo tempo, no outro, miséria para a maior
parte da população. A história também explora os limites da ciência, pois
Jekyll produz e testa a poção nele mesmo, sem avaliar os possíveis riscos e
consequências futuras, seja para si e para a sociedade.
“O Médico e o monstro” integra a tríade da literatura clássica de terror ao lado de “Drácula” e “Frankenstein”, porém não se engane. Nele nada há de natureza sobrenatural, mas sim psicológica e social, com uma camada de ficção científica. O enredo propõe uma reflexão sobre os dilemas morais e a psique humana, ajudada pela atmosfera enevoada e fria da Londres Vitoriana na criação do suspense.
É uma obra espetacular (em minha opinião) e que está sobrevivendo ao tempo. É curta, de linguagem acessível e sem floreios, que permite um ritmo de leitura agradável, somado ao enredo envolvente, onde o autor vai deixando pistas discretas para que o leitor participe da investigação ao lado de Utterson.
Boa leitura!

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