A viagem de Cilka, de Heather Morris

 “Descobrir um pouco de esperança na escuridão não é uma fraqueza.” 

Essa é uma das frases reflexivas em “a viagem de Cilka”, o qual, honestamente, foi um dos livros mais difíceis que li. Nesta obra, a autora, Heather Morris, a mesma de "o tatuador de Auschiwitz”, nos mostra com riqueza de detalhes um outro lado da história, talvez bem menos conhecida do que o regime nazista, mas semelhante aos seus campos de concentração, sendo que dessa vez, operados pela União Soviética: o sistema gulag.

O gulag foi um tipo de campo soviéticos de trabalhos forçados para prisioneiros políticos ou criminosos comuns. Muitos dos acusados de contribuir com o regime nazista foram julgados no tribunal de Nuremberg e condenados; outros foram aprisionados, diretamente sem julgamento, no gulag, como foi o caso da nossa protagonista, Cilka Klein, primeiramente prisioneira de Auschiwitz por ser judia. 

Tão logo a liberação do campo pelas forças soviéticas, Cilka fora condenada a 15 anos de trabalho forçado no gulag de Vorkuta, na Sibéria. Tal punição se dera por ter tido relações sexuais (que na verdade foi abuso mesmo que começou a sofrer e resolveu suportar) com os nazistas em troca de uma condição de vida melhor, condição bastante comum nesse ambiente:

“– Você trabalhou?

– Trabalhei para sobreviver.

(...)

– Temos um relatório sobre você, Cecília Klein, que diz que você na verdade sobreviveu se prostituindo para o inimigo. (...)

Cilka não diz nada, engole em seco, olha de um homem para outro, tentando imaginar o que estão dizendo, o que esperam que ela responda.”

***

“Como muitas outras, fui forçada a fazer o que mandavam aqueles que me aprisionaram”

 ***

Ações como vender pão da padaria a nazistas e traduzir propaganda alemã também eram considerados crimes passiveis de prisão no gulag, segundo consta no livro. Os dois regimes, da Alemanha nazista e da URSS de Stálin, compartilhavam o mesmo objetivo que era retirar o máximo de trabalho possível prisioneiros até a sua morte.

Em “a viagem de Cilka” acompanhamos com riqueza de detalhes a dura rotina de trabalho dos prisioneiros no gulag, a alimentação escassa e a descrição das feições das vítimas que tinham “rostos finos lábios rachados, olheiras e clavículas se projetando”. Narrado sob a perspectiva de Cilka, um detalhe importante foi mencionado em um dos seus pensamentos: as mulheres submetidas a condições subumanas se deparavam com situações do tipo a parada da menstruação, sem saber a causa se fora por má nutrição ou choque, pois muitas não engravidavam ao serem estupradas nesses locais.

Também contamos com alguns flashbacks, onde temos detalhes de como foi a vida de Cilka em Auschiwitz, onde chegou em 1942 com sua irmã Magda. O primeiro contato que tive com Cilka foi em “o tatuador de Auschiwitz”, onde ela se torna amiga da protagonista Gita. Em “a viagem de Cilka” temos a sequência do que aconteceu com Cilka após a libertação do local. Recomendo sim a obra para os adeptos a conhecer os conteúdos sobre a Segunda Guerra Mundial, só não achei um texto de fácil leitura no que compete ao seu teor. 

A edição que li ainda conta com um posfácio que explica a estrutura do sistema gulag e o contexto histórico de seu funcionamento. Embora seja uma ficção construída a partir de estudos aprofundados, “a viagem de Cilka” aborda situações importantes para meditarmos sobre nossas responsabilidades e os valores e desvalores cultivados atualmente, além de ajudar a combater o negacionismo.








 


Nenhum comentário:

Postar um comentário

Helena, Machado de Assis

Um dos maiores escritores da literatura brasileira, muito lembrado pelo título Memórias Póstumas de Brás Cubas ou pelo famoso questionament...