Lady Susan de Jane Austen

(...) Há algo agradável em sentimentos tão facilmente influenciáveis; não que eu o inveje por possui-los, nem eu o teria por nada nesse mundo, tais sentimentos; mas são muito convenientes quando se deseja influenciar as emoções de outra pessoa. (...)

Essa é uma das máximas que podem ser lidas no livro Lady Susan, da aclamada Jane Austen, a indicação de leitura que venho fazer hoje. Talvez essa obra não receba tanta atenção pelos leitores quando comparada com as outras maiores, pois ela foge de forma considerável dos padrões da autora no que diz respeito ao seu formato, pois trata-se de um romance epistolar, e à personalidade da protagonista-título.

Lady Susan Vernon é uma jovem e bela viúva, na casa dos 30 anos, que busca um matrimônio vantajoso para si e para sua filha Frederica. Mas até aí, o que temos de diferente das outras protagonistas de Jane Austen? O fato de Lady Susan ter uma personalidade ardilosa e manipuladora para conseguir o quer, o oposto das outras protagonistas de Jane Austen. A viúva não dá, e ao que parece, nem nunca deu o devido afeto maternal para Frederica e consegue subjugar aqueles de personalidade mais fraca, principalmente homens.

A história toda é contada através de cartas trocadas entre os personagens, onde eles registram suas opiniões e sentimentos sobre as situações vivenciadas, tendo Lady Susan como âmago. A viúva tem uma fiel amiga, com quem compartilha todas as suas intenções, recebendo total apoio desta.

Embora seja uma história curtinha e de fácil leitura, a característica da escrita de Jane Austen está presente do começo ao fim. Confesso que no início pensei que não fosse gostar do formato epistolar, mas depois que comecei a ler, não consegui parar, pois as cartas, na minha opinião, deram um tom mais realista à ficção e me permitiram ficar mais próxima dos personagens, já que eles quem as escreviam, diferente da narrativa em terceira pessoa.





A obra despertou bastante a minha curiosidade sobre as articulações da protagonista, se iriam dar certo, e o seu desfecho junto com o dos demais personagens. Honestamente, cheguei a ficar estarrecida com a postura de Lady Susan diante das situações, e não consegui torcer para que seus planos dessem certo nem que ela se desse mal. Na verdade, eu torci por sua redenção.

Após a leitura, fiquei refletindo sobre quem a autora pode ter se inspirado para criar Lady Susan. Só são revelados detalhes do presente, da protagonista programando o futuro, mas nada se sabe sobre o seu passado mais distante, apenas que ela tentou atrapalhar o casamento de seu cunhado, irmão do falecido esposo. Na minha opinião, eu senti Lady Susan como uma pessoa que projetava suas frustrações nas pessoas ao seu redor. Em uma das cartas para sua fiel amiga, Alicia Johnson, a viúva expõe:

 “(...) Fui tão mimada na infância que nunca me obrigaram a aprender coisa alguma, e, portanto, não possuo os talentos que são agora necessários para rematar a beleza de uma mulher. Não que eu seja uma defensora da moda corrente em nossos dias de adquirir um conhecimento perfeito de todos os idiomas, artes e ciências. É desperdiçar tempo dominar o francês, o italiano e o alemão; a música, o canto, o desenho, etc., podem proporcionar alguns elogios a uma mulher, mas não acrescentarão um amante à sua lista – a graça e as boas maneiras, afinal, são mais importantes. (...)”

Terá sido isso mesmo o que aconteceu à Lady Susan? Ela afirma que foi muito mimada na infância a ponto de não a obrigaram a aprender coisa alguma, o que se opõe à educação que as mulheres da época recebiam, cujo foco era prepará-las para o matrimônio. O principal alvo de suas possíveis frustrações era a filha Frederica.

“(...) Não pretendo, portanto, que os conhecimentos de Frederica sejam mais do que superficiais, e me vanglorio de que ela não permanecerá na escola por tempo suficiente para aprender coisa alguma com perfeição (...)”

E o desprezo da menina pelo casamento forçado era combustível para Lady Susan insistir nessa ação. Frederica não era a única pessoa que Lady Susan tentava maltratar. Na verdade, ela maquinava impropérios para quem ela não gostasse, mas sempre de forma discreta e que não lhe prevalecesse culpa.

A única que não se mostra influenciável com suas atitudes é Catherine Vernon, esposa do seu cunhado. Este fato, alinhado à afeição que esta desenvolve por Frederica, deixa a nossa protagonista ainda mais irritada. Algo interessante a se considerar é que Lady Susan consegue ter um forte controle de suas emoções, mesmo quando se encontra acuada.

Também não se pode deixar de sentir o romance como mais uma crítica à sociedade da época, o que é bem comum no texto de Jane Austen. Lady Susan é um livro que não pode ficar de fora da estante dos fãs de Jane Austen e eu não poderia deixar de indicar.

“(...) nenhum caráter, pois mais correto, pode escapar à malevolência da difamação. (...)”

 

 

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