Jane Austen foi uma proeminente autora inglesa
cujas obras são bem apreciadas no mundo todo até hoje, e por leitores de todas
as idades. Seu título que mais me chamou atenção foi Persuasão, que trago
aqui como sugestão de leitura.
A história, que tem como cenário a sociedade capitalista e
preconceituosa da época, gira em torno de Anne Elliot, uma moça doce, complacente e com uma elegância de espírito. No entanto, sua
opinião dificilmente era levada em conta pela família. A garota pertencia a uma
família aristocrática decadente da Inglaterra do século XIX. Era órfã de mãe e
vivia com o pai, Walter Elliot, e a irmã mais velha Elizabeth. Mary, a caçula,
havia se casado com Charles Musgrove e residia em Uppercross. Ao contrário de
Anne, as irmãs tinham uma personalidade mais fútil.
A mãe das Elliot faleceu prematuramente, mas antes confiara a educação das filhas a Lady Russel, uma amiga íntima, para ajudar a manter os bons princípios e ensinamentos que lhes transmitiu enquanto viva. Aos 17 anos, Anne teve um breve romance com Frederick Wenthworth. Eram felizes quando estavam juntos e se gostavam muito:
“Metade da atração sentida por cada uma das
partes teria bastado, pois ele não tinha nada que fazer e ela não tinha
praticamente ninguém para amar, mas a confluência de tão abundantes qualidades
não podia falhar. Foram-se conhecendo gradualmente e, depois de se conhecerem,
apaixonaram-se rápida e profundamente. Seria difícil dizer quem vira a maior
perfeição no outro, ou qual deles e sentira mais feliz, se ela a receber as
suas declarações e respostas, se ele ao vê-las serem aceites.”
Infelizmente, o pai de Anne não aceitou o namoro. Frederick não possuía fortuna. Assim, a garota foi persuadida por Lady Russel, a quem tinha como única amiga e confidente, a romper o compromisso com o rapaz. Anne não conseguiu combater a imposição de sua tutora e, dessa forma, foi levada a acreditar que a troca de alianças com o rapaz seria uma atitude imprudente e inadequada, com poucas chances de ser bem sucedida. Profusamente magoado, Frederick foi embora, com planos na carreira de marinheiro e com a intenção clara de não mais voltar.
O sofrimento da doce Anne durou mais do que ela imaginava. Seu sentimento por Frederick e o desgosto pelo que se sucedeu haviam ensombrado sua juventude e alegria. E ela tinha apenas o tempo como colaborador na cura de suas feridas. Não teve chance de respirar novos ares e conhecer outras pessoas. (Tadinha, gente!) Oito anos após esses acontecimentos e agora com 27 anos, Anne tinha uma forma de enxergar totalmente diferente:
“Ela renunciara a ele para fazer a vontade aos outros. Tinha-se deixado influenciar demasiado. Fora fraca e tímida.”
“Como Anne Elliot podia ter sido eloquente – como, pelo menos, os seus desejos eram eloquentes a favor de uma ligação afetuosa precoce e uma alegre confiança no futuro, em oposição àquela cautela demasiado ansiosa que parece insultar o esforço e não confiar na Providência! Ela fora forçada a ser prudente na juventude e, à medida que envelhecia, ia aprendendo o que era o romance – a seqüência natural de um início nada natural.”
Nesse momento, a família Elliot estava
passando por dificuldades financeiras e, com o tempo, as dívidas só aumentavam,
o que levou à necessidade de economizar consideravelmente. Assim, a família
aluga a grande e confortável residência onde viviam em Kellynch. Um forte
candidato a inquilino era o almirante Croft e sua esposa, irmã de Frederick, agora capitão Wenthworth,
rico e bem-sucedido na profissão.
O pai de Anne ainda relutou alugar a residência para esse casal, pois não pertencia a família nobre. Ganharam dinheiro com o trabalho honrado, porém isso não era suficiente em uma sociedade dominada pelo preconceito. Temos aí uma contraposição entre dois grupos sociais na obra: os nobres de berço representados por Sir Walter, e os que, por mérito, conquistaram riqueza e patentes, onde se destacam Frederick e seu irmão. Apesar da resistência, a necessidade falou mais alto e, assim, a magnífica casa dos Elliot fora parar nas mãos do casal que conseguiu sua fortuna por mérito próprio. Essa foi a forma que a vida fez para que Anne e Frederick pudessem se reencontrar, o que provocou confusão nos sentimentos da moça:
“Infelizmente, apesar de todo o seu raciocínio, ela descobriu que, para sentimentos fortes, oito anos podem não ser praticamente nada.”
“Em breve, porém, começou a raciocinar para si
própria e a tentar sentir menos oito anos, tinham-se passado quase oito anos
desde que tinham desistido de tudo. Como era absurdo voltar a sentir a agitação
que aquele espaço de tempo tinha banido para a distância e para o esquecimento!
O que não teria acontecido em oito anos! Acontecimentos de todo o gênero,
alterações, separações, mudanças – tudo, deve ter acontecido de tudo; e o
esquecimento do passado – como isso era natural, como era certo também! Era quase
um terço da sua vida.”
Porém, ela não tinha como saber sobre os sentimentos do seu capitão:
“Agora, como é que ela poderia interpretar os sentimentos dele? Estaria a querer evitá-la? No momento seguinte, ela detestava-se a si própria pela loucura que a levara a fazer a pergunta. Quanto a outra pergunta, a qual talvez a sua sabedoria não conseguisse ter evitado, foi-lhe, pouco depois, poupada toda a incerteza.”
À medida que a narrativa avança, temos os encontros e desencontros do casal, que luta para superar o passado, e não conseguimos deixar de acompanhar nossa tímida mocinha em sua dor, que levanta várias conjecturas sobre o que o capitão está pensando a seu respeito:
“Ela gostaria de saber o que ele sentia a respeito de voltar a encontrá-la. Talvez indiferente, se era possível existir indiferença em tais circunstâncias. Ele devia sentir-se indiferente ou, então, não queria encontrar-se com ela. Se ele tivesse querido voltar a vê-la, não teria precisado de esperar até àquele momento; teria feito o que ela acreditava que há muito teria feito no seu lugar, quando os acontecimentos cedo lhe concederam a independência que era a única coisa que lhes faltara.”
“Eles não conversavam um com o outro, não
tinham qualquer contato exceto o que era ditado pelas normas da boa educação.
Outrora, tinham significado tanto um para o outro! Agora, nada! Houvera uma altura em que, de todo o enorme grupo que enchia a sala de visitas de Uppercross, eles teriam sido os que mais dificuldades teriam em parar de conversar um com o outro.”
“Anne não queria que ele voltasse a olhá-la ou a falar-lhe assim. A sua delicadeza fria e a sua atitude cerimoniosa eram piores que a indiferença total.”
Indiferença foi uma das palavras que Anne mais usou para descrever o sentimento de Frederick em relação a ela. Triste, não é? Vemos também a discreta preocupação de Anne em relação à aproximação do rapaz com as irmãs Musgrove, Louisa e Henrietta, que estavam encantadas por ele.
Havia feito a primeira leitura desse livro sete anos antes, na edição da L&PM Pocket. Agora, li a edição bilíngue da Landmark, que está muito bonita, mas só pecou por conta do tamanho da fonte, que achei pequena, mas mesmo assim, é um detalhe que não tira o encanto da obra.
As descrições e a linguagem
sofisticada, características de Jane Austen, marcam presença na obra e poderão
‘persuadir’ o leitor a desistir da leitura, mas não o faça. É preciso ler essa
obra com calma e prestar muita atenção em cada frase para conseguir sentir
nossa mocinha. Para mim, o ponto alto do livro é a carta que Frederick
escreve para Anne (você pode conferi-la aqui 👉https://literalizandoideias.blogspot.com)
Outro ponto interessante e vale ser destacado é o fato de Anne Elliot ser a heroína mais velha de Jane Austen. Estava chegando na casa dos trinta e já era considerada velha para casar. As moças do período em que se passa a história costumavam se casar muito novas, geralmente antes dos vinte. Temos aí uma crítica forte da autora em relação ao pensamento da época, que deixa explícito de que nunca é tarde para (re)começar. De fato, Persuasão é um livro que vale a pena ser lido, sentido e refletido.
Beijos de luz para
todos e um ótimo feriado Santo!





Nenhum comentário:
Postar um comentário