Uma mocinha bem à frente do seu tempo

Muitos anos atrás fiquei sabendo da existência do clássico cinematográfico o morro dos ventos uivantes. Não cheguei a assisti-lo, mas pesquisei sobre, e descobri ter sido baseado no livro de mesmo nome, da famosa Emily Brontë.

Fui um pouco mais adiante e pesquisei a biografia da autora. Li que sua família era formada pelos irmãos Maria, Elizabeth, Anne, Charlotte e Patrick. As irmãs Maria e Elizabeth morreram precocemente, e as outras tiveram boa parte da educação em casa, com acesso à biblioteca do pai, onde já começaram com o exercício da escrita que, posteriormente, ganharia enorme significado na vida das Brontë e deleitaria o público. Afinal, quem gosta de literatura estrangeira clássica conhece a existência dos títulos o morro dos ventos uivantes e Jane Eyre.

Mas vocês devem estar se perguntando se o texto que trago aqui é sobre a obra de Emily Brontë. Resposta negativa: Não. Confesso que como tais obras eram bem mais conhecidas quando li sobre, acabou que meus olhos não deram a merecida atenção ao nome Anne Brontë. Sabia que ela tinha existido, mas eu não havia me interessado. Não sei por quê. 

Mas casualmente, meses atrás, navegando pela internet por não ter vontade estudar temas referentes ao curso acadêmico que fazia, fui direcionada a uma dessas páginas de resenha literária que discutia sobre o romance Agnes Grey, exatamente da irmã que menos me interessei na época. Na verdade, o próprio ficou meio que ofuscado pelos romances supracitados de suas irmãs, na época em que foi publicado, apesar de feito sucesso com o público. Acabei adquirindo o livro e não me arrependo de tê-lo lido.  

A obra é quase que uma autobiografia da própria Anne Brontë e retrata o papel da mulher durante durante o período em que foi o romance foi concebido. Mulheres que nasciam em família de boa posição social eram educadas para administrar o lar, serem procriadoras e mães de família. Já para as moças que não haviam nascido em família abastada, mas que receberam boa formação, restavam-lhes empregos como professoras, tutoras ou governantas da aristocracia, ou a mesma sorte que as mulheres aristocratas, mas com uma vida sem muito luxo, obviamente.

Agnes Grey, escrito em primeira pessoa, assemelha-se um diário. A nossa protagonista Agnes tinha uma irmã mais velha, Mary, e eram filhas de um clérigo (Richard Grey) e de uma mulher (Mrs Grey) que abandonara uma vida de luxo para viver ao lado do homem que ama. Já temos aí uma primeira crítica social - o casamento conduzido por interesses financeiros:

“Uma casa elegante com jardins amplos não era coisa a ser desprezada, mas ela preferia viver numa cabana com Richard Grey a viver num palácio com qualquer outro homem deste mundo.”

Ambas as irmãs receberam excelente educação e formação de sua mãe, que era bem preparada. Não eram pessoas ricas, mas viviam confortavelmente até que um negócio malsucedido do seu pai fez com que perdesse as economias da família.

Assim, Agnes tem a ideia de colocar em prática a sua boa formação e trabalhar como professora ou governanta. Mesmo com a resistência de sua família, ela não desistiu e foi em busca de sua independência para conseguir seu lugar no mundo. Infelizmente, o primeiro emprego de Agnes, como preceptora de crianças, não atingiu as suas expectativas e foi permeado de infortúnios. Afinal, quem nunca teve problemas no trabalho?

Mas mesmo assim, ela não desistiu. Foi adiante e conseguiu uma segunda oportunidade. Dessa vez com adolescentes. Também enfrentou dificuldades, mas ela tinha em mente que as dificuldades ajudavam no seu crescimento:

 

“A adversidade me havia feito amadurecer e a experiência me orientara.”

 

É nesse momento de sua vida que ela conhece o rapaz que se converterá em seu interesse amoroso: Edward Weston.

Embora o livro não tenha como foco central o romance entre Agnes e Weston, o herói romântico e a busca pelo amor perfeito, mas sim a formação e o crescimento pessoal/profissional de nossa mocinha, ele não deixa de abordar os pensamentos e a postura de Agnes em relação ao amor que sente por Weston.

Agnes, apesar de muito jovem, sempre se mostrou uma mulher sensata e dedicada ao trabalho. Desejava o seu desenvolvimento aos olhos do mundo, mas também desejava se apaixonar por alguém que lhe correspondesse e pudesse formar uma família.

A obra é cativante e bem charmosinha. Ao longo do livro, Agnes escreve muitos trechos que nos ajuda a refletir e que podem nos ajudar com o crescimento:

“Mas minha mãe me convenceu a não recusar, dizendo que eu me daria muito bem se abandonasse a timidez e conquistasse um pouco mais de confiança em mim mesma.”

Uma outra crítica social seria em relação à posição da mulher, em especial àquelas que não tiveram sorte de nascer em berço de ouro, na sociedade da época. Também é possível estender a crítica para o posicionamento de muitos pais que, até os dias atuais, abstraem-se da educação dos filhos, deixando a cargo apenas da escola, não impondo os limites necessários na formação:

“Uma ou duas vezes tentei censurá-la com seriedade por essa conduta irracional, mas nessas ocasiões recebi discursos tão repreensivos de sua mãe que me convenci de que, se quisesse manter aquela colocação, devia deixar a senhorita Matilda seguir a sua própria maneira.”

Confesso que jamais duvidei do que Agnes passava com seu pupilos ao longo da narrativa por já ter tido experiência como professora. Talvez alguns leitores que não saibam como é o exercício da docência pensem que a autora possa ter exagerado nas descrições.

A edição que li foi da Martin Claret, que está belíssima. A linguagem é bastante acessível, a leitura é prazerosa e flui muito bem. Você fica querendo saber sempre o desfecho da protagonista nas próximas páginas, oque ela vai fazer, como vai agir... O que é também maravilhoso é que essa edição também traz um prefácio e um posfácio com informações riquíssimas sobre a vida da autora







E ai? O que acharam? Vamos combinar e admitir que, embora a irmã Anne Brontë tenha sido de quem tenhamos pouco ou nada ouvido falar, escreveu uma simpática e atraente obra que deve ser lida pelos amantes de literatura clássica.

 

Boa leitura!!!!

Um comentário:

  1. Depois de me deparar com esse texto incrívelmente bem escrito, a vontade de conhecer Anne Brontë atingiu níveis inimagináveis. A pergunta que ronda minha mente agora é "porque nunca li nada sobre a Anne?". Sinto que preciso corrigir esse erro o quanto antes!

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