A história de uma sobrevivente

"Contar a minha história foi uma maneira de espalhar uma mensagem sobre preconceito e tolerância, mas eu também desejava trabalhar com outras pessoas para construir algo que poderia perdurar mais do que lembranças individuais dos próprios sobreviventes."
11 de maio de 1944. Era o seu aniversário de 15 anos quando foi capturada pelos nazistas, juntamente com a sua mãe, na casa de uma família que as ajudava a se esconder. 
O filho da família havia lhe dado um presente de aniversário embrulhado em um papel que foi pintado pela própria mãe, porém, ela afirma “Nunca tive a chance de abrir meu presente”. Uma passagem bem triste e tocante. 
Eva Scholoss é judia nascida em Viena, Áustria. Teve uma infância feliz e despreocupada juntamente com o seu irmão Heinz e seus pais, Erich (Pappy) e Fritz (Mutti). No entanto, assim como milhares de judeus e outras pessoas pertencentes aos grupos étnicos considerados inferiores pelos nazistas, Eva e sua família foram presos pela Gestapo e transportados sob condições asquerosas em um trem até o campo de Auschwitz-Birkenau. Chegando ao campo, homens e mulheres eram separados. Assim, a família também o foi, mas sempre esperançosos de voltarem a viver juntos após o fim da guerra. 
O tema Segunda Guerra Mundial é um dos que mais choca e desperta o interesse dos mais variados públicos. O atentado a vida de milhares de pessoas no interior dos campos nunca deixará de ser pavoroso e só uma pequena parcela conseguiu sobreviver para contar a história. 
Assim Eva Scholoss hoje o faz. 
Eva é uma das sobreviventes do holocausto juntamente com sua mãe e Otto Frank, pai de Anne Frank. Recomeçar sua vida apenas com a mãe foi muito difícil para Eva. Ela sentia que lhe faltava alguma coisa, sentia-se incompleta, apesar do casamento feliz e ter formado uma família, sonho de muitas mulheres até hoje. Finalmente Eva consegue fazer vir à tona todo o sofrimento que passou nas mãos dos nazistas: o trabalho exaustivo, a tensão psicológica à qual estava submetida pelo medo de ser "selecionada" ou de nunca mais ver sua família. 
No livro "Depois de Auschwitz", Eva narra o seu período no campo bem como durante o início do pós-guerra.


"Depois de Auschwitz" descreve com riqueza de detalhes o contexto histórico que antecedeu a Segunda Guerra, bem como o período em que foi prisioneira. Temos a oportunidade também de ter contato com outros nomes que ficaram marcados como Sigmund Freud e a família Frank. 
Enfim, a cada página o leitor consegue absorver os pensamentos, angústia e medos de Eva. 
Infelizmente seu pai e irmão não conseguem sobreviver e, após a liberação do campo, ela precisa começar uma nova etapa na vida e reconstruir a lacuna que os nazistas lhe deixaram de forma tão cruel.


Várias passagens chamam a atenção para reflexões: 
“(...) Os internos escreveram sobre a incongruência de ver judeus sendo empurrados para dentro do trem e as portas da locomotiva se fechando enquanto, do outro lado do campo, o cabaré realizava uma de suas mais vivas performances e o som da música e da dança preenchiam o ar.” 

“No curso de minha vida, vi incríveis avanços tecnológicos. Quando eu nasci, não era comum se ter um carro com motor, mas quando eu tinha quarenta anos, o homem já havia pisado na lua. Tínhamos curado doenças, criamos armas nucleares, mapeamos nosso DNA, aprendemos a navegar na internet e desenvolvemos remédios e alimentos geneticamente modificados. Pelo menos no ocidente, a maioria de nós se tornou mais rica do que uma geração como a do meus avós poderia ter imaginado. Ainda assim, em termos de humanidade, parece que milhares de anos de experiência nos levaram a fazer poucos progressos.”


Após a leitura de “Canções de Ninar de Auschwitz”, eu tinha firmado que passaria um tempo em férias com relação a tudo que contemplasse o assunto Segunda Guerra Mundial. Porém, certa tarde de sexta-feira, em uma livraria, avistei “Depois de Auschwitz". Confesso que não consegui deixá-lo lá, mas não o li assim que comprei. Esperei ficar mais desocupada com meus trabalhos do curso acadêmico que fazia na época, pois precisava me entregar ao livro. Garanto que é uma leitura interessante, de fácil compreensão e não é cansativa. Temos ainda o acesso a um registro fotográfico maravilhoso.


Na minha opinião, o livro deve ser lido por todos aqueles que se interessam pelo tema, em especial pelos professores de História. Afinal, um dos principais objetivos de Eva é fazer com as futuras gerações saibam que o holocausto, infelizmente, existiu, e é um tema que deve ser bem trabalhado nas salas-de-aula de qualquer país.

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