É isto um homem?

Discutir, ou mesmo apenas citar, o assunto de “é isto é um homem?” é tarefa delicada, a começar pela interrogação que constitui o título. Mais um testemunho perturbador, dessa vez de Primo Levi, químico italiano judeu que foi prisioneiro em Auschwitz por cerca de 11 meses durante a Segunda Guerra. Um livro cuidadosamente construído pelas suas memórias para mostrar a outra face do conflito, que não estava na frente de batalha, dar voz aos silenciados e deixar um documento para as futuras gerações.

Durante o tempo em que esteve preso em Auschwitz, Primo e seus colegas judeus tiveram sua dignidade degradada: apanhavam sem piedade, eram tratados como mercadoria barata e chamados de peças ou exemplares humanos. Ao serem admitidos no campo, perdiam roupas, calçados, cabelos (eram raspados), fotos de entes queridos, alianças de compromisso... enfim, acessórios que, para além de matéria física, eram simbólicos e pertenciam a eles, apenas a eles, assim como os órgãos do corpo. Seus nomes também estavam inclusos no pacote de extravio, em troca, a “mercadoria” recebia um número de identificação que era tatuado na pele do braço. Antes de chegarem aos campos, os judeus já haviam perdido seus direitos civis e foram confinados nos guetos. Esse era apenas o início. Primo Levi era o prisioneiro de número 174517.

Com descrições detalhadas, ele nos conta sobre a estrutura do campo e como os prisioneiros passavam os longos dias, pois em relação a viver haviam deixado de fazê-lo há muito. As noites eram ocupadas por ciclos de sono, vigília e pesadelos, era uma verdadeira luta contra a fome (a comida era insuficiente e de má qualidade, quase sempre estragada), o frio e a exaustão. As partes em que o autor escreve sobre as "seleções" eram as mais tristes de se ler para mim. 

Auschwitz exigia nadar contra a correnteza, e muitos chegaram a renunciar o próprio mundo moral para não morrer ainda que a perspectiva de futuro estivesse gravemente afetada. Primo também ressalta a frase Arbeit Macth Frei (o trabalho liberta) na entrada do campo e como ela o perturbou durante muito tempo, já que era uma forma de zombaria com os detidos durante sua chegada.

Dois instrumentos de tortura são destacados pelo autor: os sapatos recebidos pela administração e o frio. Os sapatos eram desconfortáveis, de tamanho desproporcional ao real número do prisioneiro. Após horas de marchas às quais essas pessoas eram submetidas, os calçados provocavam feridas dolorosas sujeitas à infecção. Caso perseguido, o prisioneiro não conseguia ir muito longe. O frio era aterrorizante, como não dispunham de proteção, as longas exposições diárias às baixas temperaturas provocavam doenças reumáticas ligadas ao sistema respiratório e às articulações, nevralgias, além de feridas na pele.

Compreendo que nem todo mundo tem a mesma adequação para ler sobre esse tema, mas deixo aqui como sugestão para o possível futuro leitor. Se pelo que percorreu aqui, você achou ruim o que esse grupo, e tantos outros, passou, pode ter certeza que a realidade foi uma versão piorada, agravada e aumentada do ruim. O objetivo da sugestão é também uma forma de contribuir para a conscientização sobre preconceito, seja ele qual for, religioso, social, racial... Ler “é isto um homem?” é um desafio emocional e intelectual, que leva o leitor a questionar sobre seus valores. Primo Levi narra o que aconteceu, o que presenciou sem se vitimizar, sua luta pela sobrevivência sem tentar manipular a opinião do leitor. Isso ele deixa para a pessoa que acolher seu material.

“A notícia chegou, como sempre, num labirinto de detalhes contraditórios e duvidosos: de manhã houve seleção na enfermaria, a percentagem foi de sete por cento, de trinta, de cinquenta por cento dos doentes. Em Birkenau, a chaminé do Crematório não parou de largar fumaça nos últimos dez dias.”

Boa leitura e fiquem com Deus!

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